As Recordações e dos Serviços do Hospital da Vila de Ubiretama

O Médico Emilio Lovato já falecido narrou a este colunista em a seguinte entrevista em 1999 em sua casa em Santa Rosa: que chegando a Vila de Ubiretama, hospedou-se no Hotel, ocupava um quarto de frete para a rua e fazia três refeições diárias quase todas elas a carne de galinha era constante o banho era num galpão nos fundos e de um balde grande com o fundo em ralo, que era acionado por um cordão, tinha frestas por onde se podiam ver as pessoas em pleno banho, despidas.

Em tempo de calor era no banho no Rio Laranjeira, que passava em frente e poucos metros do Hotel. Naquela época em que não existiam máquinas rodoviárias e o Município de Santa Rosa, a que pertencíamos, tinha uma grande área, o concerto das estradas era feito pelos próprios colonos, que em determinada época do ano trabalhava 06 dias, sem nenhuma remuneração. Atendia todos os casos que me eram trazidos. Ao chegar a Ubiretama logo verifiquei que havia quase tinha equipamentos cirúrgicos, então segui o processo de meus antecessores. No pátio do Hospital, um tambor de gasolina cortado pela metade era colocado água até certa altura, era suspenso por uma pilha de tijolos, entre os quais se fazia fogo à lenha.

No interior do tambor eram colocadas latas de caramelos cheias com compressas, gases e outras matérias e suponha a água a ferver durante umas quatro horas. O instrumental cirúrgico era colocado numa vasilha de zinco com tampa, onde era fervido no fogão do Hospital. Nunca tivemos infeção pós-operatória nas cirurgias assépticas. Nesse tempo já tinha sido descoberta a Penicilina e o Departamento Estadual de Saúde (hoje Secretária), dispunha de algumas doses que só liberava para casos graves.

Nessa ocasião trouxeram ao Hospital o Srº Antônio Pazziora, homem alto, forte que apresentava uma ferida infectada no pé, com febre elevada e todos os sinais e primeiramente tratei a infeção com sulfa, o melhor que se dispunha na época, mas a infeção não cedia. Então me dirigi ao Departamento de Higiene de Santa Rosa pedindo ao Chefe do Posto que interferisse junto ao D.E.S., o envio de Penicilina, pois, nenhuma resposta obteve, na época, que só os figurões conseguiam. Mesmo assim, graças às defesas do doente, após uns 60 dias o paciente teve alta, curado.

A Penicilina comercialmente disponível apareceu em Ubiretama em fins de 1944, vendida pelo laboratório Sharp-Hohme. Naquele tempo por não haver resistência por parte dos germes. O primeiro frasco eu mesmo o apliquei e, para tanto, pernoitei no Hospital. Tratava-se de um alcoólatra acometido de pneumonia, em mau estado geral. Nos três doses o paciente estava apirético e com melhora de sua sintomatologia.

Apliquei-a pouco depois em rapaz com osteomielite da tíbia com ótimos resultados, levando-o à cura total em poucos dias. O Médico Emilio Lovato já falecido narrou a este colunista em a seguinte entrevista em 1999 em sua casa em Santa Rosa: Que os partos eram feitos na colônia, em geral, pôr parteiras “curiosas”, não usavam luvas nem para fazer o toque vaginal e também lavavam o chão para jus ao que cobravam. Quando as coisas complicavam chamavam o médico a domicilio. Eu já tinha toda a parafernália necessária para atender os partos na colônia.

Os ferros usados eram flambados com álcool na ocasião e lá se fazia parto normal com sutura, fórceps e mesmo versão, com retirada manual do feto. Ás vezes até passava toda á noite na casa da parturiente. Na era pré-antibiótica se fazia o máximo possível para evitar as cesarianas, a única parteira formada na região era a Alvinha, formada na maternidade Mario Motta, onde também fiz minha prática de obstetrícia.

Em fins de 1944, a região foi assolada por uma seca. A soja estava com mais ou menos um palmo de altura. Pois ela não secou antes estacionou e quando veio às chuvas ela se desenvolveu normalmente. Era de outra espécie, mais resistente às variações climáticas embora com menos produtividade. O inverno de 1945 foi particularmente rigoroso, o rio Laranjeira congelou na sua superfície, os pássaros caminhavam sobre o gelo. A cascata formou filetes de gelo. Lembro-me ter encontrado uns caçadores de veados fazendo a espera dos animais. Pouco tempo antes se falou da existência de leão baio junto ao Comandai, na altura de Ubiretama.

Em Ubiretama havia várias etnias: alemã, alemão-russa, polonesa, italiana; e brasileiros descendentes de índios. Os alemães-russos eram todos protestantes (Batistas) e outros eram católicos. Uma das dificuldades que tinha Ubiretama para as ações comunitárias era a diversidade de raças e de religiões. Também faltava uma liderança, havia liderança e unidade só na política. A grande maioria votava no P.S.D., mais tarde sugiram lideranças para o P.T.B. Guardo boas recordações de Ubiretama, lá fiz bons amigos. Encontrei um povo honesto e trabalhador, Ubiretama tem todas as condições para progredir, mas só falta-lhe uma liderança.

A vida dos colonos de origem estava sob o controle das autoridades policias. Certa vez, indo de carona para Santa Rosa com o Subprefeito do distrito, este em certa altura do trajeto, chamou um menino e perguntou pelo seu pai, a quem conhecia e o menino respondeu que o pai havia saído, mas não sabia para onde: “Então diga ao seu pai que, quando sair, tem de dizer para onde vai”. A 2º Guerra Mundial estava em curso, á balança já pendendo para o lado dos aliados. A Força Expedicionária Brasileira chegará à Itália.

A Clinica estava aumentando, mas para o Hospital não havia nenhuma melhora. Uma noite reuni os lideres da Vila e falei-lhe sobre a necessidade de construir-se outro Hospital com alguma colaboração da Comunidade. Disseram que não poderia construir outro e que o Arnoldo procurasse melhorar o existente. Os moradores de Cândido Godoy, de onde era minha melhor clientela, vieram propor-me para trabalhar num novo Hospital que eles construiriam. A transfusão de sangue era realizada de braço a braço (doador e receptor). O Prefeito tinha o controle da gasolina no Município, severamente racionada. Tendo adquirido um Ford 29. Solicitei-lhe o combustível para o atendimento dos doentes. Liberou-me 5 litros.

Ubiretama tinha como tem uma atração turística na cascata do arraio Laranjeira. Além de sua beleza, ela fornecia energia para a serraria e moinho. Além disso, à noite fornecia luz das 23 horas. Retornando ao caso da Penicilina, devo dizer que naquele tempo ela era caríssima. Um frasco valia cerca de 500 cruzeiros, dinheiro suficiente, naquela época, para comprar uma capa Renner. Naquele tempo os soros eram feitos por via subcutânea, porque os soros eram isentos de substâncias epirogênicas, nem os equipamentos eram adequados, pois eram de borracha, que liberava chumbo.

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